sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Tale From Utopia

Eu me pergunto por que?
Por que nessa cidade tem esse povo que ta aqui na frente do meu prédio cantando a plenos pulmões, berrando e batucando, me infernizando? E por que essas pessoas não estão fazendo outra coisa no momento? Por que será que eles não dedicam o tempo deles, agora, sexta feira...a fazer alguma outra coisa que não beber cerveja e encher o saco dos outros? Esse é um bairro residencial, enfim. Que se foda, eu também não quero bancar o elitista ou qualquer merda...Mas quer saber? Se esses filhos da puta não fossem uns otários.. eles por exemplo, pelo menos...poderiam cantar melhor. Sério, sei la...Bom, que se foda. Vão à merda.

Por que nada nessa cidade funciona? Por que a bosta do ônibus sempre quebra, no mesmo lugar...?Por que a menina que eu vi ontem na kalunga não podia tirar a roupa no meio da loja e a gente começar a fornicar em paz, em público? Seria tão indecente assim?
Seria mais indecente do que eu ter comprado uma caneta marcadora de cd's...feita...deixa eu ver...no brasil mesmo. Mas cuja fabricação custou a poluição sei lá, dos lençóis freáticos...Ah, com certeza os componentes vieram de lugares onde se respeitam muito os direitos humanos.. na hora de trancar os funcionários numa fábrica 24h por dia, sem ver a luz do sol..pra ganhar 10 centavos por semana.E com certeza o navio que trouxe os contâiners com essa matéria prima não despeja óleo no oceano. E com certeza o estivador não ganha pouco e não tem também um dente na boca.E com certeza no caminho até à Kalunga não foram desrespeitadas as leis de trânsito, guardas não foram subornados, o motorista dos caminhões não tomaram rebite fornecidos por traficantes de remédios que compram sua mercadoria no paraguai e subornam a fiscalização, quando ela existe, ou então optam por pagar 10 reais pra um moleque jogar os medicamentos no rio e pegar do outro lado.E com certeza esse motorista não vai sofrer nenhum transtorno psiquiátrico derivado do uso de tais remédios sem controle nenhum, e com certeza ele vai ter uma assistência adequada se precisar, com psicólogos e psiquiatras competentes e dedicados, formados em boas faculdades públicas e que resolveram atender o povão em outras cidades e não só em clínicas particulares nos jardins, apesar de serem sim, ótimos profissionais. Com certeza sua esposa e família poderão contar com o seguro desemprego, contando com o fato de que o motorista do caminhão trabalha com carteira assinada.
Com certeza a kalunga não sonega impostos, com certeza ela não pertence a algum conglomerado de empresas que entre alguns de seus pertences estão fábricas que devastam a amazônia, tudo ilegalmente, e a galera que derruba as àrvores foram aliciadas ali perto mesmo em comunidades ribeirinhas e estão só colaborando pra merda toda, em troco de alguma coisa pra comer e negociam também uns bichos exóticos pra alguns biólogos americanos e traficantes de animais de pele rosada e grossa, cheia de perebas, cientistas formados em universidades americanas e que vem ao brasil e se aproveitam dessa cultura exótica de ser explorado por tão pouco.Adoramos tomar no cu.Com certeza esse americano não é o mesmo que anda no rio Amazonas num barquinho conduzido por um dos empregado dos donos de frotas de barquinhos da região, que cobra tipo 500 dólares desse americano, aquele que vai pra amazônia querer conhecer uma igreja que serve um chá doidão e que paga 500 dólares pela carona no barquinho; 300 que vão pra mão do dono do barco, e 200 que vão pra mão do caboclo que conhece o rio. Com certeza essa igreja não vende o chá, que é legalizado aqui no Brasil para fins religiosos, mas não para o comércio, e com certeza o turista gringo não vai passar com ele no aeroporto facinho facinho, e com certeza não serão descobertas propriedades medicinais com aquela porção do chá e com certeza não serão dados os devidos royalties à quem deveria receber (sei la quem) e com certeza, o coitado que entregou o pote de chá pro americano nunca vai saber que ele foi quem colaborou pra invenção de um medicamento, desenvolvimento de pesquisas, geração de empregos e renda, noutro país que não o dele.
Com certeza o caixa da Kalunga não teria me entregado a nota fiscal com tanta indiferença se soubesse que o horário marcado na nota estava errado e eu poderia precisar daquela nota fiscal como prova de que fazia mais de uma hora que fiz minha obturação no dente e que então, poderia me alimentar daí algum curto período de tempo e então não teria ficado com fome.
Com certeza, se tudo no mundo fizesse algum sentido, eu e a moça poderiamos ter fornicado num cantinho da loja, em paz, sem chocar ninguém e sem sermos desrespeitados e sem que isso fosse algo fora do normal. Com certeza as coisas que acontecem escondido são as coisas que precisam vir à tona, e as coisas que vem à tona são as coisas que acontecem escondido.
Em algum lugar bizarro do espaço-tempo a falta de vergonha se confunde com o pudor e bom senso e vira sem-vergonhice.Em algum lugar bizarro do espaço-tempo, a falta de bom senso, pudor e vergonha na cara viram regra pra que continuemos a falar que temos bom senso, pudor e vergonha na cara e não forniquemos livremente no meio de uma loja às 16:00 da tarde, e sim compremos uma caneta. Eu quase nem usei a caneta. E ainda lembro do rosto da garota.
Onde esse mundo vai parar?


Noarmed Citizen

Um comentário:

  1. É cmo eu sempre digo:
    - Tudo é um ciclo. Da kalunga a ayuska...

    Mas afinal, fornificou??

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